A memória é uma construção. Assim como os prédios, firma-se em fundações, pilastras e elevadores, que a conduzem, dependendo do contexto, do sótão ao terraço. A memória não preserva tudo o que aconteceu nem distribui reconhecimento de maneira equilibrada. Ela é seletiva e, muitas vezes, injusta.
Alguns personagens permanecem no centro das narrativas; outros vão sendo lentamente deslocados para as margens, até que sua ausência pareça natural. Esse processo nunca é neutro. Envolve escolhas, circunstâncias históricas, disputas de poder e, muitas vezes, preconceitos, como os que atingiram Niomar Moniz Sodré Bittencourt, cuja história de vida é tema do meu livro A Mulher Que Enfrentou o Brasil, lançado pela Editora Correio da Manhã.

O projeto inicial era bem mais simples. Eu havia sido convidado para escrever um artigo sobre Niomar. A ideia parecia caber em poucas páginas. Afinal, eu acreditava conhecer a personagem pelos dois capítulos mais lembrados de sua trajetória: a atuação decisiva na construção do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e a passagem pelo Correio da Manhã, jornal que se tornou um dos principais símbolos da defesa da liberdade de imprensa durante a ditadura militar. Além disso, eu havia trabalhado ao longo de cinco anos como Diretor da Cinemateca do Museu de Arte do Moderna do Rio de Janeiro, o que parecia me credenciar como conhecedor de Niomar. Engano total. Niomar era um mistério, um enigma, um fantasma em seu próprio Museu.
Logo no início da pesquisa percebi que havia uma enorme distância entre a Niomar que permanecera na memória brasileira e a mulher que surgia dos documentos, das reportagens, das cartas e dos depoimentos. A cada descoberta, apareciam novas perguntas. O artigo começou a ficar pequeno. Não porque faltasse assunto, mas porque a personagem recusava qualquer tentativa de síntese. Niomar pedia um livro.
A partir daí a pesquisa revelou algo que ia além de uma trajetória individual. A pergunta que passou a acompanhar todo o trabalho foi outra: como uma mulher que esteve no centro da vida cultural e política brasileira durante boa parte do século XX pôde desaparecer quase por completo da memória nacional? A resposta não cabe em um único episódio.
Niomar foi vítima da perseguição da ditadura militar, mas seu apagamento posterior envolve também outros fatores: o preconceito contra mulheres que ocuparam espaços de poder, a tendência brasileira de reduzir personagens complexas a explicações simples e a própria dificuldade do país em preservar sua memória cultural.
A palavra “cancelamento” tornou-se comum nos últimos anos para definir processos de exclusão pública. Mas muito antes das redes sociais, o Brasil já conhecia formas de apagar pessoas. Bastava silenciar suas vozes, interromper sua presença pública e deixar que o tempo fizesse o restante. No caso de Niomar, esse processo começou a ganhar força depois do AI-5.
Sua prisão, em 1969, dentro do próprio jornal, logo demonstrou que o regime militar não pretendia apenas controlar a imprensa. Pretendia intimidar aqueles que insistiam em defender a liberdade de expressão. Àquela altura, Niomar já percebia o que acontecia ao seu redor e não deixou que calassem a voz do “escrete” do Correio da Manhã, composto por nomes como Oswaldo Peralva, Calos Heitor Cony, Otto Maria Carpeaux, Antônio Houaiss e Antônio Callado, entre muitos outros.

Ela também acompanhava de perto o drama de pessoas próximas, fora do jornal. Sobretudo de suas amigas. Mulheres como Zuzu Angel e Eunice Paiva passaram a viver tragédias que revelavam a dimensão da violência do regime. Zuzu lutava para descobrir o destino do filho, Stuart Angel Jones, morto pela repressão. Eunice buscava informações sobre o marido, o deputado Rubens Paiva, desaparecido nas dependências da ditadura.
O Brasil que Niomar ajudara a crescer conhecia havia mudado. Entre o risco de vida e o autoexílio optou por morar autoexílio em Paris. Desde 1954, ela dividia sua vida entre o Rio de Janeiro e um apartamento na Avenue Paul Doumer, no Trocadèro. Paris já fazia parte de sua história, de sua rede de relações e de seu universo cultural. Mas, depois do AI-5, a cidade ganhou outro significado. Era também um lugar de proteção diante de um país onde a liberdade estava sendo progressivamente restringida.
Uma vida escrita nas páginas do Correio da Manhã
O Correio da Manhã não foi apenas o jornal que Niomar Moniz Sodré Bittencourt dirigiu durante um dos períodos mais difíceis da história brasileira. Foi parte de sua própria vida. Antes de ser uma responsabilidade profissional, o jornal era uma presença familiar e afetiva. A relação de Niomar com o Correio da Manhã começou muito antes de sua chegada à direção da empresa e muito antes de seu casamento com Paulo Bittencourt. Na verdade, a relação de Niomar com o Correio de Manhã data de antes mesmo do seu nascimento, em setembro de 1916, quando a história já havia unido as famílias Sodré e Bittencourt.
Seu pai, Moniz Sodré, deputado federal e senador pela Bahia, era amigo de Edmundo Bittencourt, fundador do jornal. Essa ligação era tão próxima que, em um momento de dificuldade para Edmundo, quando ele chegou a ser preso, Moniz Sodré assumiu a direção do Correio da Manhã.
O jornal, portanto, não era uma instituição distante para Niomar. Era um espaço que fazia parte da sua formação. Foi ali que ela começou a escrever ainda muito jovem, aos 15 anos, redigindo respostas precoces para uma seção de correio sentimental. Foi também nas páginas do jornal que ficaram registrados momentos importantes de sua vida pessoal e familiar. O Correio da Manhã, como constatei na pesquisa, foi uma espécie de “diário” de Niomar, comunicando sua presença em saraus, eventos, festas e viagens.

Quando assumiu a direção do jornal, após a morte de Paulo Bittencourt, em 1963, Niomar não estava entrando em um território desconhecido. Ela assumia uma instituição que conhecia profundamente e cuja tradição de independência fazia parte de sua própria história. Essa talvez seja a razão pela qual sua atuação tenha sido tão marcante. Niomar não via o jornal apenas como um patrimônio familiar. Via como um espaço de defesa da liberdade de expressão e do debate público.
Mais do que administrar um jornal, Niomar preservava uma tradição. E foi justamente essa tradição que seria colocada à prova nos anos mais duros da ditadura militar.
O MAM e a formação de público
Se o Correio da Manhã revela a dimensão política de Niomar Moniz Sodré Bittencourt, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro revela sua visão de cultura.
Niomar entendia que uma instituição cultural não deveria existir apenas para preservar obras importantes ou abrigar exposições. Um museu precisava criar uma relação permanente com a sociedade. Era necessário formar público.
Essa talvez tenha sido uma das suas maiores contribuições ao MAM. Desde o início de sua atuação, ela percebeu que a arte moderna brasileira só poderia se consolidar se encontrasse novos espectadores, pessoas capazes de compreender, discutir e se aproximar daquela produção artística. Também precisava de um braço crítico sólido, que contribuísse para a formação do público, daí a presença importante de nomes como Jayme Maurício e Mário Pedrosa nas páginas do Correio da Manhã, que se tornou praticamente um veículooficial do MAM.
A criação do Bloco Escola nasceu dessa visão. Antes de pensar apenas no acervo e nas exposições, Niomar queria que o museu fosse também um espaço de aprendizado e experimentação. O MAM deveria ser uma instituição viva, aberta à formação de novas gerações de artistas e de público.
A atuação de Niomar esteve ligada a uma rede de artistas, intelectuais e mecenas que ajudou a construir esse ambiente. Sua amizade com Maria Martins foi uma referência fundamental. A escultora, também uma mulher que enfrentara o conservadorismo de sua época, aproximou Niomar de uma visão mais ampla da arte e do papel do artista na sociedade. Maria foi fundamental também na vida pessoal de Niomar, dividindo com ela o preconceito da sociedade em relação às mulheres desquitadas, num período em que o divórico parecia um sonho impossível.
Por meio desse universo, Niomar conviveu com nomes como Nelson Rockefeller, Peggy Guggenheim e Marcel Duchamp, participando de um circuito internacional de ideias sobre arte moderna e instituições culturais.
No Brasil, o projeto do MAM reuniu pessoas de diferentes áreas que compartilhavam a crença de que a cultura poderia ajudar a transformar o país. O Conselho do Museu contou com nomes como Juscelino Kubitschek e Ivo Pitanguy, além de outros intelectuais e personalidades públicas. Essa mesma concepção estava presente em uma geração de mecenas brasileiros, como Raimundo Castro Maya e Walter Moreira Salles. Para eles, a arte não era apenas uma questão de coleção ou prestígio pessoal. Havia uma preocupação em criar instituições e ampliar o acesso à cultura.
Niomar representava de corpo e alma essa geração. Sua maior contribuição ao MAM talvez tenha sido justamente compreender que um museu não vive apenas de obras. Vive das pessoas que conseguem se aproximar, conhecê-las e através delas, e do convívio com os artistas, aprender .
A prisão, o exílio e o silêncio
A mesma mulher que ajudou a abrir caminhos para a arte moderna brasileira e que dirigia um dos jornais mais importantes do país tornou-se alvo da repressão depois do AI-5. Em 1969, Niomar foi presa pelo regime militar. A prisão não era apenas uma punição individual. Era uma mensagem dirigida a todos aqueles que ainda defendiam a liberdade de expressão.
O Correio da Manhã, sob sua direção, havia se tornado uma das vozes mais firmes contra o autoritarismo. A defesa da independência editorial do jornal era inseparável da própria trajetória de Niomar. Para ela, a imprensa não existia para servir aos governos de plantão, mas para fiscalizá-los.
Depois da prisão, a permanência no Brasil tornou-se cada vez mais difícil. A Paris que ela tanto apreciava pelo que lhe proporcionava de prazeres estéticos, gastronômicos e etílicos ganhou o travo amargo do refúgio imposto. O exílio de Niomar, portanto, tinha a característica particular de sua própria experiência. Ela não era uma estrangeira chegando a um país desconhecido. Chegava a uma cidade com a qual já possuía vínculos profundos, mas deixava para trás um Brasil que havia ajudado a construir.
Essa distância não significou um afastamento total da cultura brasileira. Mesmo em Paris, Niomar continuou acompanhando a vida artística e intelectual do país. Sua trajetória nunca deixou de estar ligada ao Brasil. Mas, ao mesmo tempo em que enfrentava a perseguição política, começava outro processo, menos visível: o apagamento de sua presença pública.
O fogo e a memória
Ao longo da vida, Niomar enfrentou dois incêndios que atingiram diretamente sua história. O primeiro aconteceu em 1978, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. O fogo destruiu parte importante do acervo da instituição e representou uma das maiores perdas da história cultural brasileira Para Niomar, não era apenas a destruição de obras de arte. Era a perda de parte de um projeto ao qual havia dedicado anos de sua vida.
O segundo incêndio foi ainda mais pessoal. Em 1985, o fogo consumiu impiedosamente seu apartamento na Avenida Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, destruindo praticamente todo o acervo que mantinha no Brasil: obras de arte, documentos, fotografias e objetos que contavam sua trajetória. Nenhum jornal conseguiu mensurar o valor histórico e material destruído.
Restou o que estava em Paris. No apartamento da Avenue Paul Doumer, onde Niomar permanecia uma parte importante dessa memória. Entre as poucas obras preservadas estava uma escultura de Alberto Giacometti. Junto com a foto que ilustra a capa do meu livro, a obra de Giacometti foi a única peça que sobrou do fogaréu no Flamengo. Mas nem ela escapou completamente da tragédia. Durante o combate ao incêndio, a escultura chegou a ser pisoteada por um bombeiro.
Durante anos, seu neto Mauro Sodré, que acompanhou Niomar até os últimos anos de sua vida, lutou pelo reconhecimento da autenticidade da obra. O processo foi longo, mas finalmente o Giacometti teve sua autoria reconhecida.A escultura, que havia sobrevivido ao fogo e à destruição, voltou a ocupar o apartamento parisiense de Niomar, agora com firma reconhecida. A história parecia ter encontrado uma espécie de continuidade.
Mas, em 2024, vinte e um anos depois da morte de Niomar, outro incêndio voltou a assombrar sua história. Agora prédio da Avenue Paul Doumer. Desta vez, felizmente, o apartamento de Niomar não foi atingido. Ainda assim, o episódio levou Mauro Sodré a tomar uma decisão difícil: colocar em leilão o Giacometti e as demais obras que permaneciam no apartamento.
O leilão, realizado em abril de 2025, foi um sucesso. As obras se espalharam pelo mundo e o apartamento de Paris transformou-se numa tela em branco.
A mulher que o Brasil esqueceu
A trajetória de Niomar Moniz Sodré Bittencourt mostra como a memória de um país é construída — e como também pode ser limitada. Em seu caso, muitas foram as lutas. Niomar rebelou-se ainda menina contra as normas de colégios tradicionais, assumiu a escrita de um jornal com apenas 15 anos, falando de temas voltados para a mulher, defendeu o poliamor, direito das mulheres amarem mais de um homem, assumiu um romance fora do casamento, passando à condição de desquitada, enfrentou Dom Hélder Câmara na luta pela construção do Museu no mesmo espaço onde o clérigo queria a catedral metropolitana, desafiou o mandonismo de governadores, como Carlos Lacerda, irritou jornalistas experientes, como Samuel Wainer, criou uma rede fidelíssima de amigos e amigas, resistiu o quanto pôde ao fardo de pelos menos duas tragédias incendiárias.
Até que cansou. Foi aos poucos se afastando da vida pública, decepcionando-se com os políticos. Seu último sonho era ver José Guilherme Merquior Ministro das Relações Exteriores. Ambos confiaram em Collor. Niomar não só não fez o Ministro como também quase enlouqueceu com o confisco de suas economias pelo Plano econômico da Ministra Zélia Cardoso de Mello.
O Brasil que tanto amara parecia se voltar contra ela. Os problemas de saúde também foram reduzindo sua presença social. Nos últimos anos, morando num residencial de luxo em frente ao Country recusava-se até mesmo a atravessar a rua para ver os amigos. Vaidosa, não queria dividir a decadência. De certa forma, a própria Niomar foi se apagando.
Ao longo da escrita, pensei muito na “dor da colecionadora”. A dor da pessoa que de uma hora para outra vê tudo que acumulou durante a vida desaparecer num incêndio. Não à toa depois de 1985 Niomar nunca mais pendurou um quadro em parede. Viveu até o fim apenas com os que ficaram em Paris.
Mas nem a própria Niomar pôde apagar sua memória. Ela está por aí, nas páginas do Correio da Manhã, no relato dos que a conheceram, nas imprescindíveis histórias contadas ao neto. Recolher esses dados e reconstruir o prédio de sua memória foi parte do meu trabalho. Muito ainda há que ser pesquisado: os anos de Niomar em Paris, sua intensa atividade junto ao Itamaraty na promoção da arte brasileira no exterior, o tamanho da sua coleção, enfim, muita construção à vista. A Mulher que Enfrentou o Brasil – A Arte e a Coragem de Niomar Moniz Sodré Bittencourt é apenas um tijolo no luxuoso e corajoso edifício dessa grande brasileira.