sábado, 12 de setembro de 2026 |
REVISTA LUME • ESTÉTICA COMO EXPANSÃO DA MENTE
ENSAIO

Machado de Assis, o clássico malandro do Rio de Janeiro

O malandro não é aquela figura que revoluciona por afronta, como o são as figuras da miséria de Victor Hugo ou os clowns de Shakespeare, cantados por Manuel Bandeira, ou os retirantes de Graciliano Ramos e João Cabral de Melo Neto, sem latifúndios. O malandro pertence de alguma forma ao establishment que ele denuncia.  
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Neste ensaio sobre Machado, cuja literatura já verteu rios de tinta nas mais diferentes áreas da crítica e da estética, não vou enveredar na questão de um possível projeto de Brasil-Nação, o que, a meu ver, aparece subjacente na obra machadiana. O Modernismo o esboçou, como nos dão exemplo textos como o da Pauliceia desvairada, de Mario de Andrade, e do “Manifesto antropófago”, de Oswald de Andrade, entre muitos outros esparsos, que preconizam uma visão ético-estética de Brasil. Posso mencionar até mesmo os projetos salvacionistas, nada artísticos, levados a cabo pelas oligarquias brasileiras (as classes dominantes, que eu me recuso a chamar de “elites”), que, por exemplo, o exército vem demonstrando desde que se considera o “salvador da pátria”, depois da guerra do Paraguai, justificando reiteradamente intervenções no livre curso do Estado Democrático e Social de Direito. Mas a cada um desses pontos, em breve, dedicarei ensaios específicos.

Por agora, apenas entrarei de soslaio nas incursões de Machado de Assis para salientar que o grande “Bruxo do Cosme Velho”, como Drummond o chamou, teve em suas entrelinhas exatamente algo que eu cada vez mais reconheço como elemento essencial a ser compreendido para o manejo do mundo: as normoses.

Machado de Assis.

A normose, a “patologia da normalidade”, é um desgaste da “normalidade” em dado espaço e tempo social, desgaste que gera paradigmas estagnados, que deveriam ser rompidos, o que ocasiona hipocrisias, sofrimentos e patogenias psíquicas e sociais. Quando um Ethos cultural mantém como “normais” em sua trajetória costumes, hábitos, cognições e valores que na verdade já não condizem com o espaço-tempo em que ocorrem, dá um desgaste na “normalidade”, exatamente a normose. O sufixo -OSE significa desgaste, como em artrose, escoliose, neurose. Então normose é literalmente um desgaste (-OSE) da normalidade. 

Thomas Kuhn indiretamente ajudou a inspirar esse conceito quando falou na quebra de paradigmas necessária às ciências para a sua evolução. Se a ciência um dia acreditou que a terra era plana, esse paradigma foi quebrado e substituído por outro, sobre o qual a ciência precisou reorganizar-se. Freud salientou três grandes quebras de paradigma da história humana, a que ele chamou de “as três feridas narcísicas da humanidade”, dado o fato de que esses novos paradigmas recolocaram o ser humano num local muito menos privilegiado e nobilitante do que ele pensava ocupar. São elas a revolução de Copérnico, a teoria de Darwin e a psicanálise. Copérnico tirou o ser humano do centro do universo; Darwin tirou o ser humano da estirpe direta de um Deus sobranceiro; Freud tirou o ser humano do império da razão pura e o lançou nos abismos da sombra do Inconsciente, do desejo, da libido. 

Há dois livros inteiros dedicados à psicologia e psicanálise da normose. O primeiro, escrito pelos autores que batizaram essa patologia, é Normose: a patologia da normalidade, de meus três mestres, fundadores da UNIPAZ, onde hoje sou professor convidado na pós-graduação em Psicologia Transpessoal e Transdisciplinaridade, Pierre Weil, Roberto Crema e Jean-Yves Leloup. O outro, se me permitem a modéstia à parte, é de minha autoria, intitulado Em busca do novo normal: reflexões sobre a normose em um mundo diferente, que lancei em 2020, no auge da pandemia de covid.

Pois voltemos a Machado. Quando dizem que Machado de Assis não criava nenhum tipo de personagem ou contexto que evocasse a cultura nacional brasileira, que ele era uma espécie de alheio ou até alienado em relação ao Brasil como nação, voltemos ao ponto, me espanto muito.

A ideia de nação machadiana existe num nível que preenche as entrelinhas do conceito sociológico, antropológico e geopolítico. Não era à moda de um Lima Barreto, João do Rio, José Lins do Rego, Raquel de Queirós, Jorge Amado, Érico Veríssimo, Oswald de Andrade, Mário de Andrade e depois os tropicalistas (talvez a bossa-nova), sem falar nos autores do Romantismo etc. Esses autores comporiam parte do que se pode considerar o cânone do imaginário compatível com a cultura brasileira. E isso é muito correto.

 Mas a nação de Machado é a mais funda e refinada possível, no sentido de que Machado traz à luz, no nível dos narradores e até do autor (não apenas o sujeito poético, mas também o sujeito ontológico de Machado de Assis), ouso dizer, esse tipo cultural vivíssimo que permeia a brasilidade em seu âmago: o malandro. E o malandro para um fim específico, ainda que velado (como, aliás, deve ser um malandro): expor e desafiar a normose.

Ser malandro não tem a nada a ver com esperteza e safadeza, como eu já disse em outro texto. O malandro clássico é o homem requintado, sábio, flexível, bon vivant, observador arguto da realidade, sempre à frente, impecável em seu terno e cartola brancos, totalmente inserido na rigorosa etiqueta elitista, brancura que não pode se sujar, quase dândi, sem ser boçal, galanteador, flâneur, boulevardier, capaz de romper as maiores normoses e hipocrisias com um sorriso nos lábios e um copo de bebida – por que não? – entre eles.

Walter Benjamin sublinhará o flanêur como elemento que destoa da cultura hegemônica e debocha garbosamente dela, mostrando-lhe as normoses, hipocrisias, cinismos, populismos, demagogias. Num mundo em que vigora o que Benjamin Franklin disse em Advice to a Young tradesman, em 1748, o seu famoso “Time is Money”, lidar com o tempo de modo aventureiro e dissoluto é uma baita forma de criar a revolução de dentro para fora, de hackear o sistema e as normoses de dentro para fora, de cima para baixo, a partir do sistema capitalista e de seu elitismo, com terno e gravata impecáveis (o estereótipo da vestimenta do papel social de gênero masculino ocidental, a que dedicarei certamente vários ensaios), sendo aquele homem que transita entre os mais requintados salões da nobreza e a mais devoluta e voluptuosa boemia dos entremundos da cidade. 

Na bíblia, em dado momento, Satanás se identifica assim: “Eu sou aquele que anda a esmo”. Ou seja, para Satanás, “andar a esmo” é sua própria definição e, por extensão, a definição bíblica do mal. Donde podemos concluir que, para a bíblia, ser anticapitalista (“andar a esmo”, sem consentir com “time is Money”) é a essência do mal; pelo que deduzimos que o capitalismo é a forma de relação inscrita num livro que se diz sagrado. E, sim, o capitalismo é, de fato, a verdadeira religião da humanidade desde que se mostrou com suas garras satânicas. 

O malandro não é aquela figura que revoluciona por afronta, como o são as figuras da miséria de Victor Hugo ou os clowns de Shakespeare, cantados por Manuel Bandeira, ou os retirantes de Graciliano Ramos e João Cabral de Melo Neto, sem latifúndios. O malandro pertence de alguma forma ao establishment que ele denuncia.  

Machado foi (não coincidentemente) o grande arquiteto das revelações das normoses bem brasileiras e também universais em sua obra. E ele faz isso de maneira galante, à guisa de um verdadeiro malandro, mostrando enviesado e sutil como o sorriso de um gato de Cheshire, de Alice, de Lewis Carroll. Como dirá Chico Buarque em sua ópera: “Caminhando na ponta dos pés [….] / Entre deusas e bofetões / Entre dados e coronéis / Entre parangolés e patrões / O malandro anda assim de viés”.

E a normose, como essa patologia da normalidade, é o pano de fundo de parte substantiva – senão integral – da obra machadiana. Vejo que até seu último romance, Memorial de Aires, de 1908, ano de sua morte, trata do discurso de “desistência” que Machado acusa por derradeiro, evidenciando que lutar contra as normoses não é sempre o caminho mais fácil. 

Seu narrador parece abraçar a normose do suposto idílio caduco do matrimônio-patrimônio entre o homem e a mulher, na já então normose da heteronormatividade patrimonialista, nos casais dos quais Aires é um malandro voyeur: Aguiar e Carmo, Tristão e Fidélia. Notemos que Tristão e Fidélia parecem remeter aos nomes de duas óperas do romantismo alemão: “Tristão e Isolda”, de Wagner, e “Fidélio”, de Beethoven. Em Machado, a música geralmente tem um traço de “não presente, não passado, não futuro”, como foi o caso quando Flora decidiu tocar uma sonata ao piano após a proclamação da república no romance Esaú e Jacó. Claro, os nomes podem remeter a “triste” e a ”fidelidade”. Como Capitu pode remeter a “capitular”. Etc. 

Essa desistência de Machado, no Memorial de Aires, a mesma desistência de Quixote diante de sua causa (contra as normoses, como mostrei em meu livro citado sobre o tema) e de madame Bovary em face da sua (idem, ibidem), fez com que Machado, como pessoa (daí por que eu estendi o ensaio ao sujeito ontológico), e não como personagem, sucumbisse à mesma sorte de Quixote e de Bovary, esses, sim, personagens, ao desistirem de mostrar os mecanismos normóticos: encontrou a morte ao abrir mão de sua visão que acusava a normose.  

O “humanitismo” (uma “filosofia” altamente platônica) presente em Quincas Borba, a sanha diagnosticadora de Simão Bacamarte em O alienista e a paranoia sôfrega e patriarcal de Bentinho em Dom Casmurro são exemplos contundentes. A deturpação da imagem de Jacobina diante do espelho, exatamente no conto O espelho, que só se “recupera” quando ele veste a farda militar, seu símbolo de status social, que o normaliza ou normotiza, concluindo que a “alma exterior”, a imagem que a sociedade faz dele, é muito superior à “alma interior”. Nada mais normótico, coitado! É muito óbvia a forma de mostrar o quanto se é apegado às normoses como objetos das convenções sociais. 

Se Salvador Dalí estava certo ao afirmar que “escrever é uma outra forma de pintar”, então Machado de Assis acertou na mosca ao pintar o Brasil em seus paradoxos/dialéticas mais pungentes, tendo a normose, mesmo que inconscientemente, como propulsora de suas engrenagens narrativas. Os outros, gigantes, pintaram flashes do Brasil, e nisso têm imenso valor. Mas a alma de ontem, hoje e amanhã quem conseguiu pintar foi Machado.

Machado de Assis é um dos melhores escritores do mundo, de todos os tempos. Foi, ele próprio, em sua vida pessoal, um flanêur, um malandro. Negro, num dos países mais racistas do mundo, numa das épocas mais racistas do Brasil, foi um dos fundadores da agremiação cultural literária mais prestigiosa e aristocrática de nossa terra: a Academia Brasileira de Letras.

Mas mesmo os melhores do mundo precisam sempre ser analisados sem se recorrer à hipermentalização, que significa pensar o que sempre se pensou. É preciso distanciar-se, suspender a descrença e lançar-se a nálises outras para além das perfeitas que já foram criadas. Assim, afasto-me respeitosamente de grandes críticos como Alfredo Bosi, Antonio Candido, John Gledson, Silviano Santiago, Josué Montello, Raimundo Magalhães Junior, Lucia Miguel Pereira e tantos outros.

 Se não fizermos isso, mesmo os melhores do mundo poderiam naufragar na concretude das águas das mais geniais críticas que se teceram sobre eles. A riqueza de suas obras está no fato de que sempre podemos encontrar traços novos e atuais nelas, no exercício reflexivo e especular, como a brevíssima reflexão que eu trago por ora, inserindo Machado no campo da normose (que é conceito psicológico e antropológico recentíssimo) e da ironia contra ela.

Sobre o problema de tentar abarcar Machado no rótulo do estilo de época “realismo-naturalismo”, ou de filiá-lo à epocal verve de Dostoievsky, surge outro impasse. 

O Machado “realista-naturalista” dos manuais falseia um pouco as dimensões expostas na textualidade da nação brasileira machadiana. 

Nação brasileira, sim. Até porque um dos motivos de fazer Machado desabrochar de sua descorada Helena (1876) ou Iaiá Garcia (1878) para seu caleidoscópico Memórias póstumas de Brás Cubas (1881) foi a emulação com Eça de Queirós, como lembra meu querido amigo João Cezar de Castro Rocha. O fato é que Eça conseguira oferecer uma espécie de identidade nacional – ao Brasil – com seu lusitano-universal O primo Basílio (1878), cujo pano de fundo é a normose patriarcal em todo o seu poder psicológico destrutivo (cujo maior vilão e a mulher Juliana, que insuflou a morte de outra mulher, Luísa), assim como o terá sido anteriormente em Madame Bovary (1856), de Flaubert, que, além disso, traça paralelo com Dom Quixote (1605 e 1615), de Cervantes. Nada de estranho nesse evento, já que, como temos visto, o Brasil e os brasileiros se identificam com a lusitanidade e com o iberismo desde os 1500, acoplando-o ao sincretismo de que gozamos como povo. Eça se colou àquela tradição de Geist ibérico inscrito no Brasil. 

Mas Machado se doeu. 

Isso despertou a conhecida crítica furiosa de Machado a Eça no jornal, depois da qual ele próprio, Machado, se viu na “obrigação” de tomar o lugar de centro de convergência da “comunidade imaginada” brasileira, como diria Benedict Anderson. Isso o fez dar seu salto “epistemológico”, ético e estético, e compor suas Memórias póstumas de Brás Cubas(1881) e seus outros quatro romances e contos e crônicas com teor muito mais “machadiano” do que antes. É o que João Cezar chama de a passagem de o “Machadinho” de Iaiá Garcia para trás em direção ao “Machado” de Brás Cubas para a frente.

O Dom Quixote, a propósito, é uma obra que tem como pano de fundo a normose, como mostro em meu mencionado livro sobre normose: “O Dom Quixote tem como terceiro personagem principal, além do Quixote e de Sancho Pança, a própria normose, tão ilusória e real quanto a personagem Dulcineia del Toboso, que simplesmente ‘não existe’, embora seja o que faz o Quixote agir por toda a obra. É contra a normose que o Quixote batalha, em direção à sua superação. Também Sancho é impelido por uma ilusão: a ilha da qual ele será governador, que só existe na imaginação. É a normose, em Dom Quixote, que sopapeia e maltrata o cavaleiro da triste figura em seus sonhos que, estes sim, estão muito além dos normóticos, razão pela qual a normose o castiga, em mil personagens e situações, durante a obra inteira. Até que o Quixote resolve se ‘ajustar’ à normose para parar de sofrer, o que muitas ‘terapias’ e ‘pedagogias’ fazem, como veremos. E, assim ajustado, estagnado… morre o peregrino Dom Quixote… náufrago ou iluminado? No caso do Quixote fica a dúvida, o pulmão da obra. Aliás, em Madame Bovary, Emma Bovary teve um fim mais ou menos semelhante”. 

Mas há, no Dom Quixote, igualmente uma espécie de batalha épica de Platão contra Aristóteles, como eu a mostro em meu livro Platão e Aristóteles na terra do Sol: origens remotas do conservadorismo brasileiro, minha tese de projeto de pós-doutorado em antropologia brasileira na Universidade de Copenhague, Dinamarca. O que motiva a obra é que o Quixote vai em busca de uma espécie de “sabedoria”, que, para ele, tem como meio e fim a própria honra, bem ao modo socrático-platônico. O livro ironiza todo a visão de mundo da Idade Média, que, com os cavaleiros, os duelos, os cruzados, assim, demonstra como o período medieval alimentou e acirrou um modo socrático-platônico de ver a vida, baseado em “altos ideais” aristocráticos cuja meta derradeira era a própria concepção cristã (mas uma concepção de acordo com as distorções medievais) de mundo. 

Sobre Machado nesse ínterim, poucos souberam perfurar o véu do tipo médio (normótico) brasileiro, presente nas sanhudas oligarquias, como ele. O brasileiro médio despido. Ou melhor: desvestido.

Tanto que uma das portas do nosso Bruxo ao mundo, sob a luneta da Helen Caldwell, em 1960, se chama The BRAZILIAN Othello of Machado De Assis; a Study of Dom Casmurro. Ela não deixou de destacar o adjetivo BRAZILIAN ao se referir ao Othello arquetípico de que trataria. 

A forma como Machado ironizou o “plano da ideia”, tão ao gosto de Platão, contra o qual Aristóteles se insurgiu, se encontra em uma das metáforas mais sui generis da literatura brasileira, quase uma metáfora pelo avesso, em que todo um conteúdo simbólico transcendentalista se contorce em uma concretude palpável que chega a ser patética. Trata-se do início do capítulo 2 de Memórias póstumas de Brás Cubas, “O emplasto”, que não deixa de ser a face concreta (Aristóteles) do “humanitismo” abstrato (Platão) de Quincas Borba, concretizada, pois, nessa metáfora pelo avesso, em que a ideia de Platão se remexe como uma coisa de Aristóteles. Diz o capítulo machadiano: “Com efeito, um dia de manhã, estando a passear na chácara, pendurou-se-me uma ideia no trapézio que eu tinha no cérebro. Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas cabriolas de volatim, que é possível crer. Eu deixei-me estar a contemplá-la. Súbito, deu um grande salto, estendeu os braços e as pernas, até tomar a forma de um X: decifra-me ou devoro-te”.

Memórias póstumas de Brás Cubas detém um ponto de vista narrativo privilegiado, pelo fato de o autor estar morto e poder, com isso, dizer abertamente as coisas que seriam inconfessáveis socialmente. Brás Cubas, com efeito, é o protótipo do personagem machadiano que é esperto, espertalhão, e não malandro, mas, ao invés disso, exatamente o oposto do clássico malandro. Bem-nascido, todas as tentativas de Brás Cubas de galgar a glória humana e mesmo de se casar, algo considerado o básico dos básicos naquela sociedade, são frustradas para ele. 

O malandro sabe conquistar, e Brás Cubas, nessa arte, é um fiasco completo. Marcela o explora; Eugênia, a quem ele finalmente conquista, lhe causa repulsa; Virgília, que seria um excelente casamento, cai nas mãos de Lobo Neves, seu oponente, e eles se tornam no máximo amantes, adúlteros, nesse tema da hipocrisia e normose social que, aliás, irá apavorar outro de seus personagens futuros, Bentinho, em Dom Casmurro; finalmente Eulália morre antes de se casarem.   

Esse lugar privilegiado de “defunto autor” é uma janela singularmente ampla que Machado nos abre para nos falar muito francamente de temas nos quais ele em geral desliza como um flanêur malandro. É o que ele faz no mesmo capítulo 2, “O emplasto”, onde revela as intenções reais por trás da criação da panaceia que prometia curar a alma. É sempre interessante notar o coliseu que se abre entre Platão e Aristóteles (tema da minha tese de pós-doutorado aludida), no paralelo entre o “emplasto” de Brás Cubas (concreto, para o corpo) e a “filosofia” do “humanitismo” (abstrata, para a alma) de seu amigo de infância, Quincas Borba. 

Explicito que, enquanto o humanitismo promete curar o corpo através da alma, platonicamente, o emplasto promete curar a alma através do corpo, aristotelicamente. Machado põe essa dialética, assim, no centro de seu jogo sagaz. Brás Cubas revela: “Agora, porém, que estou cá do outro lado da vida, posso confessar tudo: o que me influiu principalmente foi o gosto de ver impressas nos jornais, mostradores, folhetos, esquinas, e enfim nas caixinhas do remédio, estas três palavras: Emplasto Brás Cubas. Para que negá-lo? Eu tinha a paixão do arruído, do cartaz, do foguete de lágrimas. Talvez os modestos me arguam esse defeito; fio, porém, que esse talento me hão de reconhecer os hábeis. 

“Assim, a minha ideia trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o público, outra para mim. De um lado, filantropia e lucro; de outro lado, sede de nomeada. Digamos: — amor da glória. 

“Um tio meu, cônego de prebenda inteira, costumava dizer que o amor da glória temporal era a perdição das almas, que só devem cobiçar a glória eterna. Ao que retorquia outro tio, oficial de um dos antigos terços de infantaria, que o amor da glória era a coisa mais verdadeiramente humana que há no homem, e, conseguintemente, a sua mais genuína feição. 

“Decida o leitor entre o militar e o cônego; eu volto ao emplasto”.

Mais uma vez, em metonímia, o “militar” representa o pragmatismo concreto e material de Aristóteles, ao passo que o “cônego” traz em si a supremacia da pureza das ideias de Platão. Machado deixa que o leitor decida por um ou outro. Na verdade, há uma armadilha nessa “escolha”. É que, no fundo, tanto o “militar” quanto o “cônego” representam, como antecipa Machado, duas faces de uma mesma moeda, na medida em que, ao elucubrarem sobre “glória” seja “temporal” ou “eterna”, o próprio objeto do desejo, remetendo a Freud, é abstrato e platônico por si só, pois a “glória” está no mesmo patamar das lutas delirantes e psicóticas de Quixote, timbradas na “honra”, irmã gêmea, senão sinônimo, da própria “glória”, seja lá o que isso quer dizer. Mais uma vez trazendo Emma Bovary ao jogo de que ela faz parte com tanta contundência, interessante ressaltar, aqui, que essa mulher é a única, entre todos esses personagens masculinos citados, cujo objeto de desejo não é algo imaterial, ideal, onírico, mas, ao contrário, é o prazer, a libido, o desejo mesmo em sua essência. 

Em Machado, também nos dois capítulos derradeiros de Memórias póstumas, o narrador retorna aos paralelos entre o seu “emplasto” e o “humanitismo” de seu fiel amigo Quincas Borba, que morre em “semidemência” e voltará como assombração no romance seguinte de Machado, justamente o Quincas Borba, escrito dez anos depois do Brás Cubas (1891). Vejamos esses dois últimos capítulos: 

CAPÍTULO 159: 

“A semidemência

“Compreendi que estava velho, e precisava de uma força; mas o Quincas Borba partira seis meses antes para Minas Gerais, e levou consigo a melhor das filosofias. Voltou quatro meses depois, e entrou-me em casa, certa manhã, quase no estado em que eu o vira no Passeio Público. A diferença é que o olhar era outro. Vinha demente. Contou-me que, para o fim de aperfeiçoar o Humanitismo, queimara o manuscrito todo e ia recomeçá-lo. A parte dogmática ficava completa, embora não escrita; era a verdadeira religião do futuro. 

“— Juras por Humanitas? Perguntou-me. 

‘          “— Sabes que sim. 

“A voz mal podia sair-me do peito; e aliás não tinha descoberto toda a cruel verdade. Quincas Borba não só estava louco, e esse resto de consciência, como uma frouxa lamparina no meio das trevas, complicava muito o horror da situação. Sabiao, e não se irritava contra o mal; ao contrário, dizia-me que era ainda uma prova de Humanitas, que assim brincava consigo mesmo. Recitava-me longos capítulos do livro, e antífonas, e litanias espirituais; chegou até a reproduzir uma dança sacra que inventara para as cerimônias do Humanitismo. A graça lúgubre com que ele levantava e sacudia as pernas era singularmente fantástica. Outras vezes amuava-se a um canto, com os olhos fitos no ar, uns olhos em que, de longe em longe, fulgurava um raio persistente da razão, triste como uma lágrima… 

“Morreu pouco tempo depois, em minha casa, jurando e repetindo sempre que a dor era uma ilusão, e que Pangloss, o caluniado Pangloss, não era tão tolo como o supôs Voltaire. 

“CAPÍTULO 160 

“Das negativas 

“Entre a morte do Quincas Borba e a minha, mediaram os sucessos narrados na primeira parte do livro. O principal deles foi a invenção do emplasto Brás Cubas, que morreu comigo, por causa da moléstia que apanhei. Divino emplasto, tu me darias o primeiro lugar entre os homens, acima da ciência e da riqueza, porque eras a genuína e direta inspiração do céu. O acaso determinou o contrário; e ai vos ficais eternamente hipocondríacos. 

“Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de Dona Plácida, nem a semidemência do Quincas Borba. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e, conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: — Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”.

Não vejo, portanto, exatamente que o “estilo de época” “realismo-naturalismo” recaia sobre Machado. Esse rótulo me parece que ajuda a sonegar o Machado profundo, em contraposição ao “Machadinho”, retirando-lhe atributos essenciais à sua análise e fruição estética e ética passada, presente e futura em relação à “época” em que o gênio do Cosme Velho urdiu sua visão de lince sobre o Brasil, em geral, e o mundo, em particular. O “estilo” realista-naturalista, com alguma aplicação concreta, sem dúvida, parece o menos importante em Machado. 

O plano do conteúdo, e não o plano da expressão, nesse aspecto, é o que de mais rico Machado tem a nos oferecer. E isso apesar de Machado ser um esteta e cultor intimorato da linguagem e da língua portuguesa. Vale lembrar que, na juventude precoce, Machado conviveu com Ramos Paz e com o filólogo Manuel de Melo, frequentando o imenso Gabinete Português de Leitura, onde teve acesso às obras clássicas universais. Ele foi tipógrafo da imprensa nacional e depois revisor. Escreveu uma resenha famosa à gramática portuguesa de Vergueiro e Pertence em 1862, e um artigo em 1873 com finalidade semelhante. O próprio artigo 1º da Academia Brasileira de Letras expressa que a instituição “tem por fim a cultura da língua e da literatura nacional”. No discurso da recém-fundada ABL, em 1897, Machado propõe que, no ano seguinte, sejam arrolados “alguns elementos do vocabulário crítico dos brasileirismos entrados na língua portuguesa, e das diferenças no modo de falar e escrever dos dois povos, como nos obrigamos por um artigo do regimento interno”.

Um fato curioso que vem a reboque deste é que, em 1881, mesmo ano da publicação de Memórias póstumas de Brás Cubas, Júlio Ribeiro estará publicando sua Gramática Portuguesa, o primeiro instrumento gramatical da gramatização científica brasileira. A gramática de Júlio Ribeiro é impressionante em relação à visão científica de elementos da linguagem. A forma como Ribeiro lida com fonética, por exemplo, nos capítulos e partes iniciais, mostra uma visão quase precursora sobre o tema, já que o próprio Cours de linguistique général, de Saussure, será de 1916, e o Círculo de Praga, que deu toda a cientificidade às questões de fonética e fonologia (ou fonêmica) só será fundado em 1926. Em 1888, o mesmo Júlio Ribeiro escreverá sua obra ficcional A carne. Ele será um dos membros da Academia Brasileira de Letras. Ou seja, o ambiente que circundava Machado era extremamente fértil em relação às questões de linguagem e de língua. Recentemente, gravei na Fundação Biblioteca Nacional depoimentos em que eu ressaltava as características de Machado como cultor da língua portuguesa e sua diversidade.

Mas, aqui, volto a enfatizar o conteúdo. Os tais humanos machadianos são universais justamente por serem médios ou normóticos, não sendo nada “universais” num sentido pretensamente platônico. Machado faz questão de que esses tipos desfilem bastante territorializados, inseridos em células sociais muito brasileiras e muitas vezes, até, surpreendentemente, regionalizadas. Mas obviamente nunca macunaímicas. Essa é a verve de uma outra inclinação artística. Na disputa entre o local e o global, que tratei em outro ensaio meu aqui publicado, Machado faz do local um verdadeiro dínamo do global. É um Sócrates-Platão que desce e se concretiza em Aristóteles.

Para não me deter muito, uma figura é de Itaguaí, chegada da Europa com os ranços do academicismo do velho continente; outra é da Rua do Carmo; outra é de Barbacena; outra é ex-futura frequentadora da Rua do Bispo, do Seminário São José (um protótipo literário da repressão cristã patriarcal da época), numa sucessão de censuras, repressões e recalcamentos que o clero, ainda que meramente beliscado, impinge a quem se inclina contra as suas veladas volúpias.

Os mapas em Machado de Assis não passam incólumes. Os territórios, provincianos e brasileiros, muito ao redor do Rio de Janeiro e seus tipos pequeno-burgueses e desistentes (normóticos), estão em cada rua e em cada ruga machadiana. 

E o malandro sábio, ou o sábio malandro, espécie de epinarrador ou metanarrador em toda a obra de Machado, um clássico de nossa cultura mais funda, dialogando com a tradição da nossa ancestralidade, flana sobre tudo e todos, expondo formas de mediocridade e normose num branco impecável que jamais se suja ou macula.

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