Diferentes vertentes de místicos dizem que somos capazes de atrair o que desejamos, afinal, a vida é uma questão de ressonância, de firmeza nas querências, da vontade inquestionável que se alastra com ímpeto e domina o sujeito e o espírito, bem da maneira pregada por aquele filme sucesso dos anos 2000, O Segredo, no qual um menino conta que queria tanto, mas tanto uma bicicleta vermelha, e tinha se imaginado com fervor pedalando nela – a bicicleta já lhe pertencia em seus pensamentos e ele a agradecia de antemão –, e eis que a mesma apareceu do nada no meio da sua sala. Essa é a lógica do pedir, agradecer (como se já tivesse sido), e depois receber – feito a tal “cocriação” contemporânea, apenas um nome novo para a mesma moda. Quem dera se os desejos fossem assim, tão tatibitates. Estou muito mais com Freud e a psicanálise, afinal, desde que o inconsciente foi descoberto sabemos que o Eu não é mais o senhor da própria casa. Em grande parte das vezes, aquilo que queremos não é nosso desejo, o querer é da ordem da demanda e o desejo é o que nos falta, e o que me falta é um oceano de possibilidades, nunca sei se o que acho que me falta me falta mesmo ou só camufla a minha falta de verdade. O tempo inteiro levamos rasteira do mistério que nos habita, a começar pelo nosso corpo, desconhecemos o que ele está tramando até o aparecimento de algum sintoma, e esse sintoma, no meu caso, é sempre em maior ou menor medida fruto da ansiedade que me acomete agora com seus dentes de esquilo, me rói alvoroçada como se meu cérebro fosse uma noz sendo lascada, e ela só perde sua casca no sonho, quando sou tomada pelo inconsciente a céu aberto.

Enquanto estou acordada, ou coloco tudo para fora como estou fazendo agora, ou rumino e rumino e rumino mais e logo sou acometida por uma gastrite que se transforma numa úlcera, uma completa indigestão dos pensamentos que me faz, literalmente, regurgitar toda comida que coloco para dentro. Não consigo elaborar o passado e a coisa velha fica presa em seu curso, me entala, passo o tempo me chibatando refém do que já foi quando não há mais jeito. Eu mesma me devoro. E porque devoro a mim, também quero devorar o mundo. Sou minha própria algoz e dos outros, perco os dias rolando a merda de uma timeline e fico acoplada ali, morrendo de vergonha alheia, criticando colegas virtuais, amigos pessoais, perfis profissionais, não paro de achar as pessoas rasas e excessivas em si mesmas, o pior de tudo é isso, as pessoas revolveram empanturrar umas às outras, há poucos anos seria quase impensável imaginar a vida com tantas coisas ridículas.
Um dos meus livros de cabeceira é “O Livro do Travesseiro”, escrito no Japão ao fim do século X e início do XI. Sua autora, Sei Shônagon, uma dama da corte a serviço da imperatriz, escreveu mais de trezentos textos de tamanhos variados com apontamentos pessoais sobre o cotidiano no palácio imperial e as etiquetas de conduta, além de listas de preferências que ora tratam da natureza, ora dos sentimentos, ora dos dois. Uma obra-prima da contemplação que ilumina os valores estéticos de uma época.
As anotações de Sei Shônagon, dotadas de grande perspicácia sobre as relações humanas, foram escritas no gênero literário próprio do Japão no período Heian – sōshi (notas esparsas) ou zuihitsu (ao correr do pincel) –, e eram guardadas em caixas de madeira com almofadas que serviam de travesseiro. Nas listas, há “Coisas que causam prazer”, “Coisas que desapontam”, “Coisas que são raras” (“Genro elogiado por sogro”), “Coisas que deixamos de cumprir”, “Coisas que são desdenhadas”, “Coisas que desagradam”, “Coisas que fazem palpitar o coração” (“Noite em que se espera alguém”), “Coisas passadas que nos causam saudades” (“Em um tedioso dia de chuva, encontrar cartas que outrora nos comoveram.”).

As tiradas de Sei Shônagon nasceram da contemplação, coisa rara na segunda metade do século XXI. Hoje, vivemos quase sem direito a parar e observar a vida, somos bombardeados por informações o tempo inteiro e azucrinamos nossas antenas rolando timelines, a linha do tempo tornou-se virtual e eu tenho carregado a nostalgia pesada de uma época na qual era gostoso até andar de ônibus para observar as paisagens de fora e de dentro e só esbarrar em um conhecido por força da combinação ou do acaso – agora topamos em desconhecidos que andam com o celular na palma da mão olhando para o chão. Há menos de cinquenta anos, nos alcançavam somente em casa via campainha, telefone fixo ou carta e, principalmente, não sabíamos tanto da vida uns dos outros, quanto mais das vidas de tantos outros exaustivamente fabricadas nesse tempo quando se mostra mais do que se vive, ando fatigada de tanta exposição virtual e para me aliviar resolvi me inspirar na Sei Shônagon e fazer uma lista, no caso nada contemplativa, das “Coisas Ridículas” desse mundo que cabe na palma da mão, a começar por quem que faz novela ruim da própria vida (antes fosse novela boa) e acorda e tira foto do seu rosto na cama e depois mostra a arcada dentária sendo escovada no espelho e mais tarde fotografa a salada do almoço com o frango, o peixe, o tofu ou a omelete acompanhados da hashtag – hashtag passou a fazer parte do nosso vocabulário! – com a nutri marcada, porque agora nutricionista virou nutri e a proteína é mais do que necessária, a pirâmide alimentar cuja base eram os carboidratos também mudou, descobriu-se que quem não come proteína e não faz musculação se quebra mais cedo, um tombo na escada aos sessenta pode ser a morte, e por falar em malhação a palavra está praticamente em desuso pois agora as pessoas vão para o treino e não sei para o quê elas todas estão treinando se nem um terço é atleta, talvez treinem para fazer outra “Coisa Ridícula” que é postar foto no espelho da academia com a hashtag “treino entregue!”, entregar virou um verbo excessivamente usado e sem propósito, antes se entregava um documento, uma carta, um presente, algo que passava de mão em mão, mas hoje em dia todo mundo entrega tudo, principalmente performance, o mundo é de quem entrega performance!, também essa é uma “Coisa Ridícula”, o artista mais chinfrim é alçado por todos os amigos ao patamar de maior entregador, sempre acompanhado de adjetivos como incrível, maravilhoso, genial, potente, necessário – necessário é de lascar, tirássemos todos os necessários do mundo certamente sobreviveríamos – , e pior ainda, todo mundo virou gigante ou imenso, cadê os anões do mundo? Se fôssemos um bando de gigantes teríamos que nos mudar todos para Itu e ninguém está nem aí para Itu, outra “Coisa Ridícula” (e quando digo ridícula além de ser algo capaz de me revirar o estômago também pode me provocar tristeza) é a quantidade de pais e mães que postam fotos de seus filhos ainda crianças – até mesmo recém-nascidos, filmam e expõem o parto, o bebê já nasce no hospital e na rede social –, há poucas coisas tão tenebrosas, tudo bem que as crianças nunca tiveram escolha, afinal, a raça humana é a única que nasce completamente dependente do outro para sobreviver, mas ao menos as agressões pareciam menos medonhas antigamente, sem o consentimento do bebê os pais furavam a orelha das meninas ou por questões religiosas mutilavam o clitóris delas ou cortavam o prepúcio dos meninos, faziam isso em nome de algo que consideravam maior, mas agora o maior são as telas pequenas, sei que a boa educação diz que uma mulher não pode falar mal das escolhas de uma mãe quaisquer que sejam elas, e também entendo que as mães gostam de exibir suas crias assim como gosto de exibir minha gata, no entanto acho uma coisa além de ridícula bastante preocupante, a Inteligência Artificial pode fabricar fotos de qualquer criança e sabe-se lá como serão usadas, que confiança é essa no mundo em volta?, do sorriso até o coco dos pirralhos nada é descartado, falando em merda outro dia soube de uma apresentadora que filmou o próprio marido fazendo literalmente merda, o cara estava cagando e ela o flagrou na privada enquanto abria a porta do seu banheiro novo para exibir a decoração com piso abóbora, secador de toalha e vaso sanitário de marca famosa, e ao perceber que o marido estava cagando continuou filmando o homem que não era nada ridículo mas agora o é, porque consentiu a publicação dessa toscaria que é uma “Coisa Ridícula”, daqui a pouco é capaz de estarem fazendo a coreografia do sexo do casal perfeito diante das câmeras, me dá vontade de gritar, Para mundo que quero descer!, mas nem preciso porque o mundo vai parar logo mais mesmo, o El Niño de 2026 que o diga, esse sim é um gigante, também acho ridícula essa vida onde além dos atores que sempre alimentaram a indústria tendo sua privacidade exibida, agora quem vivia nas coxias é obrigado a entrar em cena, as telas são para todos e devem ser usadas por todos porque sem elas se perde a clientela e tudo virou mercadoria, não existem mais bastidores no mundo.
Nós que escrevemos e queremos ser lidos – pois é no leitor que a ponte acontece –, além das palavras precisamos mostrar a cara. E ao colocarmos nossos rostos a tapa aparecem desde coisas sensatas, como leituras de trechos de livros, repost de entrevistas e críticas, convites para debates –, até atitudes leoninas de alguns autores que parecem desejar ser atores e não se ferem com o tamanho da autoexibição, pelo contrário, adoram os muito mais de quinze segundos de fama e fazem coisas ridículas para chamar a atenção dos seguidores – que também é um nome, por si só, esdrúxulo, na vida real é crime seguir alguém –, e nesse vale tudo para entusiasmar a plateia me causa constrangimento, por exemplo, alguém que posta uma foto de sunga com a barriga trincada no espelho e na imagem seguinte do tal carrossel (saudades da época que carrossel era feito de cavalinhos rotativos) publica informações sobre o próximo livro, céus, sei que o algoritmo é ingrato e gosta de corpos mas o que tem o cu a ver com as calças?, ou melhor, o que tem o livro a ver com a sunga? Além disso, me provoca tristeza o abuso do corpo feminino sob a
salvaguarda do “meu corpo, minhas regras”. Nós, mulheres, sempre tivemos nossos corpos socializados para atenderem aos desejos dos homens, então por que nós mesmas, que queremos ser reconhecidas por nossas palavras, orientamos o olhar alheio para outros cantos? Não vou dizer que nunca pensei em me aproveitar do meu rosto, dos meus peitos firmes do alto dos meus 45 (por causa dos muitos cistos, ainda bem que benignos) e das minhas pernas musculosas das quais eu poderia, sim, abusar, mas não, não vou me render a isso, além de uma escolha que considero equivocada acho super deselegante e até mesmo cafona decotes e minissaias excessivos, outra “Coisa Ridícula” é a necessidade que muitos têm de postar fotos com famosos seja lá quais forem, assim como é uma “Coisa Ridícula” as pessoas que tiram print da notificação na tela do celular avisando quando alguma celebridade começou a segui-las e publicam isso como troféu de conquista máxima, tem também a “Coisa Ridícula” que é a moda de vídeos dos escritores abrindo sua primeira remessa de livros após a edição – quando se coloca uma câmera a genuinidade se perde por inteiro por melhor ator que seja o escritor –, no entanto, todos vamos sendo cooptados a tais fanfarronices pois o mercado editorial e os formadores de opinião andam vorazes pelas vidas privadas e pelas mesmas temáticas que em sua maioria envolvem seus interesses particulares, dane-se a estética!, claro que cada um tem o direito de consumir as coisas que lhe apetece, mas desde que consumir virou um verbo para se falar de literatura ou qualquer outra forma de arte tudo foi piruetado mesmo, no meu imaginário talvez ultrapassado há certas coisas que não combinam com literatura e que considero mesmo “Coisas Ridículas” apesar de pessoalmente gostar de muitos conhecidos que não acham ridículas as coisas que acredito serem ridículas e isso também é um problema porque não se pode mais proferir opiniões sinceras sob o risco de levar pedrada e ser cancelada por quem considera tudo um ataque.

Sonho com um mundo utópico onde os artistas – à exceção dos atores – seriam conhecidos apenas por suas obras, não por suas caras. Quem me dera ser a Elena Ferrante, mas meu nome começa com H e carrego um Machado que não é capaz de extirpar as “Coisas Ridículas” se alastrando por todos os âmbitos, os psicólogos e psicanalistas também saíram de seus consultórios e entraram nas telas, os médicos filmam suas conferências com drones, os preparadores físicos exibem seus corpos e os dos seus alunos, os diretores de cinema aparecem tanto quanto seus personagens, os astrólogos são verdadeiros astros, os líderes espirituais se tornam gurus de vendas preciosas, de todo grupo despontam os tais influencers que de uma hora para outra viram grandes especialistas em determinada área, e a maioria dos ridículos se valem de sentenças envolvendo narrativas de superação repletas de pontos de exclamação, fora aqueles posts também ridículos que replicam à sua maneira tosca a apresentação de um currículo, “oi, já que muita gente nova chegou por aqui nos últimas dias, eu sou o Fulano, o Beltrano, o/a Sicrane”, e por aí segue uma existência cheia de feitos mais ou menos memoráveis que se aglomeram nos 2200 caracteres permitidos em um post. Outra “Coisa Ridícula” que me provoca asco é o comportamento dos machos. Se uma mulher não exibe um homem ao seu lado eles se sentem no direito de importuná-la com mensagens grosseiras travestidas de elogios, “Oi princesa, sonhei contigo ouvindo música comigo, podemos marcar um vinho?” Oi???? E se não são respondidos, a falta de limites e o ego deles é tão estrondoso que a inconveniência se repete até que seja preciso bloquear o indivíduo pois eles têm certeza que as mulheres aparentemente solteiras estão desesperadas por um homem por mais horroroso e sem charme que o interlocutor seja, também há a “Coisa Ridícula” da felicidade excessiva e falaciosa ou dos que confessam chorando sua depressão para o público, afinal, o que importa nas redes, assim como na vida, é a liberdade, mas que liberdade é essa?
Até as demonstrações públicas de amor se fizeram obrigatórias, há quem entre em desespero se determinado alguém não lhe faz uma homenagem virtual no dia de seu aniversário, ah, como era lindo o mundo onde o Eu te amo só era dito ao pé do ouvido.
E ainda tem mais, se um diz que ama o outro, o segundo reposta o amor do primeiro, que então reposta mais uma vez para mostrar que o outro repostou, são os códigos de conduta social mais devastadores que existem pois tudo se direciona a convocar a plateia para a vida desses “eus” muito amados traduzidos em vídeos e fotos, e neste mundo virtual a icônica frase do Sartre que jamais envelhece, “o problema não são os outros, mas o que fazemos daquilo que os outros fazem de nós”, torna-se uma luta cada dia mais inglória, pois alimentamos tantos outros com seus terrenos de gramas verdes que ficamos ainda mais frágeis em nossa autopercepção. Eu me comparo o tempo inteiro e perco tanto tempo me comparando que não faço nada.
Odeio os excessos de visibilidade e até o artista mais foda me tira o tesão se aparece em sua vida privada ostensivamente na minha timeline, vivendo fora do seu oficio. Iguaria é coisa pouca. O melhor pote de sorvete se torna enjoativo na terceira bola e faz vomitar na última colherada. Todo gostar envolve algum mistério. Relacionamentos longevos duram porque há sempre algo a se descobrir, algo que escapa. Nunca saberemos tudo a nosso respeito, quanto mais a respeito do outro, o velho “Conhece-te a ti mesmo” só vale enquanto caminho de busca, jamais como ponto de chegada, afinal, o grande bolsão do inconsciente é uma floresta pantanosa. Sempre acho que aquilo que nos atinge, seja o outro, um livro ou um filme, acerta na dose exata entre esconder e mostrar. Por isso, as pessoas mais interessantes são as mais resguardadas, deixam apenas rastros. Mas apesar de acreditar nisso vou sendo inundada pela maré e quando me toco estou me debatendo em águas salgadas demais onde todo mundo boia e ninguém afunda. No entanto, gosto de gente que afunda.
Odeio estar odiando as coisas que mais amo, gente, livros, filmes, os namastê vão dizer que odiar é um verbo que não combina com alguém de coração bom, mas dane-se, eu odeio mesmo, sou voraz em minha falta de comiseração e de autocomiseração. E por que diabos continuo presa ali? Por que me pego, muitas vezes, incorrendo nas mesmas asneiras e me achando superior porque faço a asneira sabendo que o é? E se todos souberem também? Sou mesmo ridícula. E caso os animais tivessem voz certamente também se rebelariam contra o uso pejorativo das palavras que designam suas espécies, um asno ou um burro já nascem sabendo andar, são muito mais independentes do que nós, arfantes doentios pela atenção alheia.
Odeio tanto esse mundo que caio no maniqueísmo o qual tanto critico, paramos de olhar as pedras em nossos caminhos, basta nos aproximarmos de alguma delas para percebermos suas nuances, seus pretos que viram cinzas porque são borrados pelo branco.
Foi tomada por estes excessos de pensamentos odiosos e cansativos que outro dia fui dormir agoniada pensando nesse mundo onde me sinto cada vez mais uma eremita. Adormeci rolando a timeline decidida a, no dia seguinte, desativar por um tempo a minha conta do Instagram. Iria parar de odiar os outros no mundo virtual e tentar ver a vida real com novos olhos. Na manhã seguinte, entrei para quem sabe talvez a minha última visita à rede social, e foi quando recebi uma mensagem da Meta me avisando que eu tinha corrompido os códigos da comunidade e se eu não provasse quem eu era em até vinte e quatro horas teria minha conta eliminada. Sem pestanejar, totalmente tomada pelo pavor de perder todas as minhas memórias virtuais, coloquei meu login e senha e fui hackeada. Perdi o acesso à minha conta. Fiz o que queria, saí da rede, mas não por escolha minha. Assoberbada pela ansiedade, caí no golpe e executei meu desejo torto. Levei rasteira do inconsciente, que não opera com a razão. E durante 48 horas gastei meu tempo – inclusive contratei um advogado especialista em crimes digitais – agoniada para voltar. Afinal, nem sempre queremos o que desejamos.
