quarta-feira, 29 de julho de 2026 |
REVISTA LUME • JORNALISMO EDITORIAL
CRÍTICAS

A Casa dos Malditos, Tito Leite

Entre dois amores.

“O monge é um buscador de Deus que abraça sua vocação batismal dentro do claustro, numa vida de silêncio e solidão”, assim Tito Leite define a vida que escolheu e viveu por alguns anos no Mosteiro de São Bento em Olinda. Porém, havia uma
dualidade dentro dele. Se, de um lado estava o monge beneditino, de outro, o homem que apreciava as noites de Olinda marcadas pelo álcool e o amor. Foi exatamente por causa disso, que acabou indo parar na Casa dos Malditos, uma espécie de rehab espiritual e físico para religiosos e religiosas com problemas.

Depois de publicar dois excelentes romances – Dilúvio das Almas (2022) e Jenipapo Western (2024) – além de livros de poesia, Leite se volta ao memorialismo com A Casa dos Malditos – Memórias de um ex-monge beneditino. O tal retiro é uma
espécie de guia da narrativa, mas aqui, com a destreza de narrador que lhe foi agraciada, o escritor navega por sua experiência como monge – das alegrias espirituais e físicas aos problemas sociais, políticos e até culturais que enfrentou nesse
período.

Nascido Cícero, em Aurora (interior do Ceará), Leite faz o espaço que ocupa fisicamente sua forma literária, seja nos romances ou aqui, numa narrativa que transita entre dois polos: a vida monástica e a vida fora do mosteiro – uma divisão que parece marcar a ele mesmo, como narrador e como pessoa. Assim, outro lugar, a Casa dos Malditos, surge como uma tentativa de mediação e superação dessa dicotomia, da retomada de uma vida monástica plena – mas algo dentro dele já havia se rasgado. Talvez o narrador não perceba isso, mas nós, leitores e leitoras, percebemos claramente que não haverá volta, então a questão que fica é como e quando.

A narrativa vai e volta no tempo e espaço, mas há uma constante: a tensão que o consome. Do lado de fora há um amor, talvez mais espiritual do que carnal, por Mónica, uma mulher que só quer ser sua amiga. Isso não o impede porém de sonhar
com ela, e, especialmente, de sofrer por ela. Compõe poemas, espera mensagens, negligencia suas funções. Tudo isso é narrado de uma forma brutalmente honesta, que eleva ainda mais a qualidade do livro, dando uma dimensão profunda sobre sua experiência plasmada em sua literatura.

“Como nos perdemos de nós mesmos?”, indaga. “O mosteiro foi minha primeira opção, e eu queria acreditar que escolhera a melhor parte.” Páginas depois, escreve: “O certo é que não há uma receita para viver bem. Ontem fiz um verso dizendo que
minha vida inteira foi um erro de cálculo. Mas eu não sou de cálculo, sou da mística.” Esse tom do questionamento é o que domina o livro. É como se ele já soubesse o que fazer, mas nos quer como cúmplices, ou como se lhe disséssemos “faça”.

O monge e o escritor parecem conviver dentro dele, ora duelando, ora se apoiando. Seus romances não têm nada de sacro, pelo contrário – e isso lhe causa, obviamente, problemas dentro do mosteiro. Este, por sua vez, se revela mais palco de disputas de
pequenos e grandes poderes do que de exercício da espiritualidade. A tal Casa dos Malditos não revelará muito diferente, também.

O que há de mais belo nesse livro é perceber que essa é a trajetória de um homem em busca do acerto de contas consigo mesmo, em busca da plenitude. Novamente, como questão formal dentro da narrativa, é preciso romper com os espaços para isso. Deixar a vida monástica não significará abraçar de vez a noite olindense (ou de qualquer outra cidade que seja), mas, sim, a busca do equilíbrio e do exercício de uma espiritualidade sem amarras, e também da busca por um amor correspondido do lado
de fora. Nesse sentido, Leite fez uma obra de profunda compreensão sobre os afetos que guiam a todos nós.

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